“Por outro lado, há um campo em que, mais cedo ou mais tarde, praticamente todo mundo recebe um papel de protagonista – como herói, heroína ou vilão. O desempenho nessa arena é um teste tão feroz de caráter quanto sentir-se tentado a vender segredos nucleares a Pequim. Ao contrário das implicações leves dos dilemas cotidianos, enfrentados pelo cidadão médio em outras áreas da vida, os riscos corridos nesse campo não poderiam ser mais altos. Porque o provável é que, você fique com o coração de outra pessoa nas mãos. Sua maneira de lidar com esse órgão frágil, que pulsa ou se convulsiona conforme seus caprichos, dará sua medida exata.”
O Mundo Pós- Aniversário
(The Post-Birthday World)
Bifurcação
Lionel Shriver, mais uma vez vem tocar em assuntos polêmicos como em Precisamos Falar Sobre O Kevin. O que destaca Shriver no mercado literário é sua ousadia de dissecar situações levando-as aos extremos, sua narrativa sempre foca o conflito psicológico de suas personagens com tanto precisão minuciosa que ou conquista o leitor ou o assusta.
O Mundo Pós- Aniversário nos apresenta Irina McGovern, uma personagem patética comparada a Kevin, no entanto Irina também possui seus dilemas e complexidade; suas certezas se desfazem ao se deparar com uma escolha: trocar seu relacionamento estável por um desejo incontrolável por um homem desconhecido. De um lado existe Lawrence: intelectual e pacato; do outro: Ramsey: jogador de sinuca.
A partir deste ponto, o da escolha de Irina, a autora escreve duas histórias, por esta razão os capítulos são duplicados, em um é descrito o que sucederia se Irina escolhesse Lawrence e o outro se escolhesse Ramsey. Este fator pode entediar alguns leitores, pois se lê duas histórias paralelas, por outro lado, este é o artifício usado pela autora que torna a obra única.
Ao acompanhar as possíveis escolhas de Irina, o leitor se envolve escolhendo qual foi a melhor escolha. Em uma realidade certos personagens se tornam mais agradáveis do que na outra, certas situações acontecem nas duas realidades, porém em circunstâncias divergentes. O livro é o retrato conflitante dos relacionamentos vivenciados por todos, não se prendendo apenas no tema “traição”.
A leitura vai se tornando imprevisível, ao ler a primeira versão dos fatos o leitor tenta antecipar o que acontecerá na segunda, e essa ligação acaba por criar uma instabilidade. O livro vem mostrar o contraste que as escolhas tomadas podem resultar, todas terão seus prós e contras. O leitor tenta juntar as peças para o findar do livro, que infelizmente, vem a contradizer a idéia da autora, pois as duas realidades se cruzam ao final.
Lionel mais uma vez mostra sua astúcia na abordagem de temáticas árduas e complexas evidenciando seu talento na (des)construção psicológica, mostrando seu olhar num tema aparentemente bem familiar.